O
calendário acabara de virar para vinte e quatro daquele fevereiro chuvoso de
dois mil e vinte e três. A madrugada morna e úmida cobria a cidade adormecida
com seu manto plúmbeo esticado entre as serras. Apesar da aparente normalidade,
algo inesperado estava por acontecer.
Ao
acaso, os relâmpagos bisbilhoteiros revelavam os afrescos pintados no interior
da capela centenária do Largo do Rosário. Seus assustadores clarões instantâneos despertaram os anjos luminários que faziam sentinela
na entrada do púlpito. Na contraluz do altar-mor, a Senhora do Rosário que se
mantinha contemplativa com o Nazareno nos braços, percebe um gotejar insistente
lá longe, próximo à penúltima janela a esquerda.
—
São Benedito! Acuda São Benedito! Donde vem o gotejar que não para de aumentar?
Se continuar dessa maneira, não demora para inundar toda a capela.
Sem
titubear, o prestativo santo atravessou toda a nave a passos largos,
desapareceu escadaria acima para ir desembocar resfolegante nas velhas janelas
da torre, logo acima do relógio romano, de onde podia ver o telhado. Dalí, nada
identificou de irregular, senão a grande queda d´água vertendo do céu sem lua.
São Benedito já descia a escadaria, quando então ouviu um forte estalo e parte
do revestimento da parede cair no chão
da capela.
São
José desce do altar e corre ao seu encontro.
— O
que fazer agora?... São Benedito, orai por nós!
Não
demorou para que o paredão de taipa que intermediava o vão entre duas janelas,
viesse ao chão em grande estrondo, deixando entrar toda a chuva lampejante.
Sinais
do fim do mundo? Seria o fim da capela? O esforço e dedicação de centenas de
ex-escravizados que edificaram aquele templo para glorificar sua fé, iria assim
esvaecer água abaixo? A Senhora do Rosário, São José e os anjos da guarda do
Senhor estavam petrificados.
Ajoelhado,
sob o esgarçado manto marrom, o humilde santo pede compaixão aos céus. Em seu
íntimo, deseja também invocar os ancestrais oitocentistas para que façam valer
todo o suor e amor pilado junto com a terra daquelas paredes seculares, quando
percebe que as duas janelas quase penduradas no ar se mantêm em seus lugares,
como se parede ainda houvesse por baixo dos batentes.
Naquele
momento, o aguaceiro para de descer, a tensão dissipa milagrosamente no espaço
e o céu clareia. Então São Benedito se emociona com a visão dos santos
padroeiros vizinhos se aproximando. Nossa Senhora da Conceição vem rodeada de
anjos e seguida por Santa Branca, Aparecida, João Batista, Francisco, Frei
Galvão e uma infinidade de outras divindades da região, cada qual em seu
estilo, na sua maneira de atuar. As paulistinhas, como que surgindo da montanha
de barro acumulado no piso, dão o ar de sua poética graça e se espalham por
toda a nave da capela.
O
bendito santo se alegra em tão celestial companhia. José traz o Filho no colo, enquanto a Senhora do Rosário
resplandece segura em seu altar atemporal, entoando uma linda Ave Maria em coro
com os maravilhosos sacrossantos recém-chegados. Os confrades assim permanecem
com toda sua energia fazendo vibrar a velha capela. Se algum observador pudesse
vislumbrar a cena, diria estar em um museu vivo de arte sacra.
Terminado
o cântico, a Senhora do Rosário estende seu bondoso olhar por toda a capela, do
teto ao chão, de parede a parede, verificando que ainda permaneciam
intactos, os antigos retábulos, os
frontões barrocos dos altares, os rococós, as luminárias e tudo o mais. Os
danos se limitaram apenas àquele trecho da parede, por onde se podia ver o dia
já claro trazendo o pessoal da defesa civil para as devidas providências.
E
assim foi! Diferente do que ocorrera com outros prédios e casarões históricos
da cidade, outrora embargados, esquecidos e destruídos, ali não caiu mais um
cisco daquele velho paredão da capela de Nossa Senhora do Rosário e São
Benedito dos Homens Pretos. Como que se o tempo tivesse sido suspenso para
evitar mais perdas até que se fizessem os reparos necessários.

Muito bom Léo!! Gostei de ver como manipulou as palavras nos levando a tempos outrora passado!!
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