CAUSO MEU, CAUSO NOSSO
(Apresentado no sarau da AJLetras em 30/11/2025)
Vocês não vão acreditar, eu sei, até
parece história de pescador, mas é a pura verdade o acontecido comigo. É
verdade tão verdadeira quanto ao fato de que só escrevo ficção. O causo sucedeu
quando eu ainda era jovem e morava na zona oeste, ou seja, do outro lado do
rio.
Naquele sábado, estive na festa
junina da Matriz, comendo bolinho caipira, milho assado, tomando quentão,
comendo pinhão, já falei “quentão?”. Pois foi... tomando pinhão, comendo
quentão, embolando as ideias e papeando com os amigos até umas tantas, quando
então resolvi me despedir de todos e voltar pra casa. Na época, eu costumava transitar
a pé pela cidade e foi dessa maneira que tomei meu rumo já tarde da noite. Desci
a Rua XV sozinho em meio a garoa fina que se formava, bafejando vapores na
respiração ofegante. Até parecia que eu tinha fumado gengibre.
Quando os ponteiros do relógio se
aprumavam em riste, indicando meia noite, eu já ia em direção à ponte do São
João. Os sinos badalaram no momento em que eu passava na frente do Fórum. Enquanto
observava minha sombra crescendo e se alongando solitária no chão ao passar por
um poste iluminado, uma sensação gélida invadia meu espinhaço.
Foi quando, mais à frente, pressenti um
vulto saindo por trás das árvores do jardim do Fórum. Me assustei sem ter
coragem de olhar fixo pra lá e acelerei as passadas quando já alcançava outro
poste de luz. Ao passa-lo, logo minha sombra reapareceu... daí arrepiei até os
pelos do sovaco... ela, não estava mais só; fiquei estarrecido. Tinha outra
sombra ladeando a minha.
Nesse momento senti uma baforada horrível
nas orelhas e minhas pernas descontroladas começaram a tremer.
— Vosmecê acalme-se, por que tanta
pressa? — dizia a voz rouca e abafada como que viesse de outra dimensão.
De tão apavorado que estava, eu não
consegui responder. Pelo rabo do olho pude ver que se tratava de um senhorzinho
que procurava esconder o rosto, descalço, com as pernas de uma velha calça
enroladas até as panturrilhas, e que se movimentava com um balanço característico
de quem surfa numa base flutuante.
— Vai pr’outro lado? Eu levo vosmecê.
Meus sentidos paralisaram e o coração
tamborilou debaixo da camisa que já ensopava no suor, como se eu estivesse
evaporando. Totalmente em pânico, tive a sensação de continuar meu trajeto
deslizando no espaço, sem comando próprio nas pernas tropegas. Chegando na
cabeceira da ponte, já com neblina começando a baixar no entorno, o senhorzinho
reaparece esticando o braço com a mão aberta e me pedindo algo que não
compreendi.
— Oi, passage! ... Oi, tem passage?
“Será um desses loucos de rua, aluados,
que andam só por aí?” — Pensei, procurando aliviar a tensão.
Mas juro pra vocês, sem compreender
nada, senti o cheiro da morte e ali mesmo simulei o sinal da cruz e comecei a
alinhavar um Pai Nosso. Foi quando o estranho homenzinho apontou para baixo,
chamando minha atenção para que eu também olhasse para lá. Como um autômato,
sem opção de escolha, obedeci. Num
segundo, estiquei o pescoço e pude ver, nas ondas do rio, uma silhueta humana segurando
um varão e se equilibrando dentro de um pequeno barco envolto em névoa.
— Ói que agora eu vou! Ói que lá vou eu!
Vem você também! — dizia ele, acenando para que eu descesse até lá.
Perplexo, meu olhar escaneou ao redor
e... surpresa: o estranho que me acompanhava até então, havia desaparecido como
que num passe de mágica. Fiquei tão apavorado que num só impulso virei um
papa-léguas em cima da ponte e vazei pelo Jardim Jacinto, até alcançar minha
casa. Logo me vi todo enrolado nas
cobertas sem saber como tinha chegado.
Credo, só de lembrar fico todo eriçado.
Me disseram depois que a criatura que me acompanhou naquela noite era o tal do
Barqueiro das Almas, elemento que faz parte do imaginário jacareiense. Vocês já
ouviram falar dele?

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