“E tua alma é um sonho brilhante,
pra
conduzir teu povo feliz!
És
bela flor do Vale gigante
bem
como orgulho deste país!”
Em 1970, a população já passava dos sessenta
mil. Muitos, vindos de regiões distantes em busca de melhores condições de
vida, se alinhavam aos canteiros de obras das represas hidroelétricas que
surgiam na região para conter a fúria das águas que invadiam as várzeas no
tempo das cheias e também gerar energia para as indústrias metalúrgicas e
automobilísticas que surgiam ao longo do Vale.
Em 1972, a cidade já mudava de cara. A
velha ponte de arcos era derrubada para dar lugar a outra mais larga e moderna.
Foram dois anos com a população do São João e arredores transitando por uma ponte de
madeira baixa e estreita até a inauguração da nova. Os carros tinham apenas a
ponte da prainha para trafegar.
Para quem subisse a Rua XV de Novembro
alcançando os Quatro Cantos, logo poderia se admirar com um dos primeiros
semáforos instalados na cidade. Mais à frente, na Praça Barão do Rio Branco, a
obra pioneira do edifício Juca Azevedo crescia continuamente em direção ao céu.
No entorno da cidade, a rodovia D.
Pedro desembocava na Dutra, a cidade de São Paulo ganhava sua primeira linha de
metrô, Drummond publicava o livro O Poder Ultrajovem e, nos confins do
norte era inaugurada a Transamazônica em um país, já tricampeão do futebol
mundial e que celebrava seus 150 anos de independência. O progresso jorrava luz
por todo canto.
Mas havia muita coisa por fazer. Jacareí estava só no começo das grandes
transformações e pulsava com imensa vontade de acompanhar o crescimento socioeconômico
do país de forma mais efetiva. O
conservadorismo que persistia no berço sonolento ainda precisava ser combatido,
lembrando que na época, a velha guarda, a esquerda e os desbundados com seus
costumes provocantes se debatiam enquanto conviviam. Com o propósito de superar esse mal-estar,
surgem jovens políticos com novas ideais que, feito o vento leste que predomina
neste Vale, levantam a poeira do comodismo e se esforçam para banir o sono sem
sonhos para longe dessas paragens. Era um caminho sem volta que ainda precisava
dividir forças com o autoritarismo vigente do governo militar.
Nos espaços públicos, toda e qualquer
ideia inovadora era vista com muita reserva. Para evitar confronto com os
milicos, mandava a praxe virar as costas para os questionamentos dos jovens
sonhadores, tidos como perniciosos para a sociedade. Os três jornais existentes na cidade viviam
cheios de dedos para frasear seus conteúdos sem despertar a fúria conservadora
que fungava no cangote dos intelectuais insatisfeitos.
Os cronistas desenvolviam a arte de
escrever amenidades temperadas com críticas disfarçadas nas entrelinhas. Era a estratégia
do esconde-esconde das intenções que os leitores prazerosamente aprendiam a
decifrar. Os poetas aleatórios, sem se justificarem no ofício de aparente
futilidade, tiravam os pés do chão para desenhar com métrica e rima, o choro de
seus desamores, os desditos sonhares da vida e a revolta pela opressão que
sufocava as gargantas cidadãs.
Sim, havia muito por fazer! A cidade
queria remoçar e os jovens procuravam um mundo novo que tivesse sua cara. Sua
gente desejava vida melhor.

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