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RETRATO DE JACAREÍ DOS ANOS 70

 

                   “E tua alma é um sonho brilhante,

                   pra conduzir teu povo feliz!

                   És bela flor do Vale gigante

                   bem como orgulho deste país!”


               (Benedito José Mendes Silva. “Hino de Jacareí”)





 Localizada no início do Vale do Paraíba Paulista, que atravessa o berço formado pelas serras do Mar e Mantiqueira, está Jacareí. A cidade centenária, que dormitou nas baixas expectativas econômicas da indústria têxtil e de alimentos até os anos 1950, vinha procurando acordar com a chegada de uma nova industrialização que pipocava nas margens da Rodovia Presidente Dutra. Daí, a importância daquele momento de virada em nossa história.

Em 1970, a população já passava dos sessenta mil. Muitos, vindos de regiões distantes em busca de melhores condições de vida, se alinhavam aos canteiros de obras das represas hidroelétricas que surgiam na região para conter a fúria das águas que invadiam as várzeas no tempo das cheias e também gerar energia para as indústrias metalúrgicas e automobilísticas que surgiam ao longo do Vale.

Em 1972, a cidade já mudava de cara. A velha ponte de arcos era derrubada para dar lugar a outra mais larga e moderna. Foram dois anos com a população do São João e arredores transitando por uma ponte de madeira baixa e estreita até a inauguração da nova. Os carros tinham apenas a ponte da prainha para trafegar.

Para quem subisse a Rua XV de Novembro alcançando os Quatro Cantos, logo poderia se admirar com um dos primeiros semáforos instalados na cidade. Mais à frente, na Praça Barão do Rio Branco, a obra pioneira do edifício Juca Azevedo crescia continuamente em direção ao céu.

No entorno da cidade, a rodovia D. Pedro desembocava na Dutra, a cidade de São Paulo ganhava sua primeira linha de metrô, Drummond publicava o livro O Poder Ultrajovem e, nos confins do norte era inaugurada a Transamazônica em um país, já tricampeão do futebol mundial e que celebrava seus 150 anos de independência. O progresso jorrava luz por todo canto.

Mas havia muita coisa por fazer.  Jacareí estava só no começo das grandes transformações e pulsava com imensa vontade de acompanhar o crescimento socioeconômico do país de forma mais efetiva.  O conservadorismo que persistia no berço sonolento ainda precisava ser combatido, lembrando que na época, a velha guarda, a esquerda e os desbundados com seus costumes provocantes se debatiam enquanto conviviam.  Com o propósito de superar esse mal-estar, surgem jovens políticos com novas ideais que, feito o vento leste que predomina neste Vale, levantam a poeira do comodismo e se esforçam para banir o sono sem sonhos para longe dessas paragens. Era um caminho sem volta que ainda precisava dividir forças com o autoritarismo vigente do governo militar.

Nos espaços públicos, toda e qualquer ideia inovadora era vista com muita reserva. Para evitar confronto com os milicos, mandava a praxe virar as costas para os questionamentos dos jovens sonhadores, tidos como perniciosos para a sociedade.  Os três jornais existentes na cidade viviam cheios de dedos para frasear seus conteúdos sem despertar a fúria conservadora que fungava no cangote dos intelectuais insatisfeitos.

Os cronistas desenvolviam a arte de escrever amenidades temperadas com críticas disfarçadas nas entrelinhas. Era a estratégia do esconde-esconde das intenções que os leitores prazerosamente aprendiam a decifrar. Os poetas aleatórios, sem se justificarem no ofício de aparente futilidade, tiravam os pés do chão para desenhar com métrica e rima, o choro de seus desamores, os desditos sonhares da vida e a revolta pela opressão que sufocava as gargantas cidadãs.

Sim, havia muito por fazer! A cidade queria remoçar e os jovens procuravam um mundo novo que tivesse sua cara. Sua gente desejava vida melhor.

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