— Isso faz lembrar de nosso primeiro
carnaval! — Disse minha mulher.
— Sim! — Confirmei enquanto me voltava
para flagrar um suave sorriso nos cantos de seus olhos. Enquanto aguardávamos
nosso café em silêncio, me entreguei às reminiscências.
Como se fosse ontem, um filme rodando
na tela da memória. Aquela garota que passava, se aproximando descontraída, trazia alegria para o meu coração.
Até então, ela só tinha ido nas matinês
com as irmãs, pois os pais não permitiam que fossem aos bailes noturnos. Eu,
apesar de bastante tímido, fui assertivo o suficiente para obter a permissão da
mãe para leva-la ao carnaval noturno no clube em que era associado.
Maravilha dos céus! Eu queria aquela
garota pra mim. Já havia dois meses que discretamente investia na caça da
belezura. Tudo começou no dia em que meu coração balançou numa troca inesperada
de olhares enquanto ela passava em minha rua. Comecei então a observar sua
movimentação, os horários e trajetos. Nosso primeiro encontro ocorreu numa
tarde chuvosa. Eu pensava nela, procurando materializar aquele rosto bonito que
me atraia, quando tive a ideia.
Hum, vai ser hoje! Catei um
guarda-chuva e fui pelo caminho em que ela passaria depois do trabalho.
Cálculo certeiro. Lá vinha a garota
esgueirando-se da inesperada chuva pelos beirais. Por trás dos óculos
embaçados, vi os olhinhos escuros se alegrarem na minha frente. Uma onda de
aceitação nos envolveu e logo caminhávamos abraçados para cabermos debaixo do
guarda-chuva. Dessa maneira, palpitando na felicidade do encontro, rumamos
diretamente para a varanda de minha casa, que ficava a meio caminho de onde ela
morava. Ali aguardando o céu clarear, descobrimos nossos nomes e trocamos
gentilezas. Quando ela se foi, meus olhos acompanharam seus passos até o virar
da esquina, minhas narinas inspiraram o cheiro delicioso que ficou na varanda e
meu coração se alegrou com o sucesso da empreitada.
Havia algo diferente naquela garota que
eu não encontrara em nenhuma outra. Era uma química inexplicável, que eu ainda não era capaz de decifrar. Logo, achei necessário criar uma segunda oportunidade. Foi quando, num
fim de semana, havia baile na casa de um amigo, ali mesmo numa rua adjacente.
Em minha cabeça metódica comecei a imaginar maneiras de rever a garota. Sabia
que além do fator sorte, precisava também estar atento para a possibilidade de
ela passar por ali e eu aproveitar a chance.
— Bingo! Quem vinha lá, com duas irmãs
a tiracolo? Ela, a Suuuzi.
Minha adrenalina subiu numa cacetada
só, somando-se a algumas doses de cuba libre que já evaporavam nos miolos. Me
senti imantado.
— Vamos entrar! Venham conhecer meus
amigos. — As irmãs se apressaram em dispensar o convite enquanto Suzi mantinha
a disposição de se aventurar por alguns instantes. Não sei se havia algo
combinado entre elas, mas o fato é que a garota entrou comigo enquanto as irmãs
aguardavam lá fora.
Era uma casa comum, típica de bairro
operário. Naquela época os jovens costumavam marcar bailinhos para se
divertirem. Um trazia o toca-discos, outros amiguinhos garantiam
os discos, o dono da casa fornecia as bebidas e a descontração tomava conta da
noite.
Apresentei
Suzi a alguns amigos e logo começamos a nossa única dança que tivemos naquela
noite. Na vitrola rodava Wuthering Heights, da Kate Bush - música baseada no
romance homônimo de Emily Brontë - que estava fazendo grande sucesso. Dançando
então, dei-lhe o primeiro beijo.
— Ah, meu deus, era tudo o que eu
queria!
Fui às nuvens. Ela também. O tempo
parou e nossas almas se tornaram uma só naquele momento. Terminada a dança, a
garota me pediu para acompanhá-la na saída e logo partiu com as irmãs. Não
podia se demorar, porque os irmãos eram muito ciumentos e brabos, o pai estava
adoecido e queria evitar problemas.
Eu estava feliz porque havia conseguido
atrair a atenção de Suzi. Era uma situação nova que quebrava minha rotina
entediante de trabalhador, estudante e maluco de fim de semana. Entretanto, eu
queria mais que atenção, eu queria o amor dela.
Ah... sim! E o primeiro carnaval que
tivemos juntos? Pensei, interrompendo o desfile de lembranças enquanto me
remexia na cadeira.
Calma lá meu chapa! Sussurrei em
meu íntimo, enquanto sorvia um gole do café quentinho que acabara de chegar.
Suzi, meu presente de vida, na minha frente, já apresentando no semblante as marcas
dos tempos vividos, mesmo assim, resplandecia em alegria.
— Pois então! — Voltei ao filme de
nossas vidas, que estava gravado em alta definição na memória. No final de
fevereiro já estávamos namorando e curtimos todas as tardes de matinês e noites
de carnaval. Foi uma tremenda celebração. Eu me sentia um Pierrô repaginado,
bastante pragmático, me desinibindo ao som das marchinhas e bailando com minha
linda Colombina pelo salão. Suzi se desmanchava dengosa nos meus braços.
Estávamos apaixonados.
— Que bela recordação! ...dá-me um
beijinho de boa noite, dá-me, dá-me, dá... dá-me um beijinho de boa noite, tá
na hora de nanar...
A modalidade carnaval de salão já foi
muito forte, quando as bandas carnavalescas com seus trompetes, pratos e bumbos
faziam o salão vibrar do chão ao teto e o sangue fervilhar gostoso nas veias dos
foliões.
É até engraçado lembrar que num
daqueles bailes havia um grandalhão desgarrado da turma do funil. Ele passava
perturbando a galerinha do “paz e amor” e por duas vezes já tinha nos provocado
com grosserias; situação que já começava a aborrecer. Quando vi pela terceira
vez, aquela fantasia de Arlequim, se aproximando para atentar minha Colombina,
segurei o pico de adrenalina, respirei fundo, e tuchei com vontade dois dedos em seus olhos. Pode parecer exagero, mas pela lógica do raciocínio
inconsequente, precisava compensar minha desvantagem física. O bobo da corte
caiu por ali mesmo, sob o pisoteio de quem vinha atrás e de
imediato foi retirado do local pelos seguranças que já deviam estar cubando o
bichão.
— Qualé? A Suzi é minha e ninguém tasca!
Exceto esse único embate que
experimentamos, tivemos dias de muita paixão e alegria que terminaram numa
grande quarta-feira de ressaca. Era só o pó de nós dois, cada qual de volta a
sua modesta rotina, porém com um diferencial: tínhamos nos conhecido melhor e a
partir daí começamos a nos preparar com firmeza para uma parceria que pudesse
sobreviver a muitos outros carnavais.
— No que você está pensando aí, assim
tão compenetrado? — Me pergunta Suzi,
enquanto acaricia minhas mãos.
Aqueles olhos carinhosos de encontro
aos meus me puxaram de volta. Tive a impressão de ter orbitado por inúmeros
outros carnavais até ancorar no momento presente. O café ainda quente, a meia
xícara, aqueceu minha garganta. Lá fora, os foliões se afastavam num
maravilhoso cordão de gente bonita, serpenteando ao longo da rua.
Sem nada dizer um para o outro, nos
demos as mãos e saímos atrás daquele bloco carnavalesco. Leves e soltos,
felizes pelo legado de nossas vidas construídas em comum.
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